Abelhas aproveitam a noite para polinizar planta da Mata Atlântica e fugir de competidores 

 

Pesquisadores descobrem que atividade de espécies que polinizam o cambuci é maior 30 minutos antes do nascer do sol. Este resultado que ajuda a entender comportamento de grupo raro de abelhas. 

 

A maioria das abelhas são ativas durante o dia, em condições ensolaradas. Mas cerca de 1% das espécies desses polinizadores visitam flores à noite. É o caso de cinco abelhas estudadas por pesquisadores do do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Biociências da USP, que utilizam o período antes do amanhecer para polinizar flores de cambuci, espécie frutífera da Mata Atlântica com interesse comercial no setor de alimentos. O estudo ajuda a entender quais fatores permitem que esses insetos se orientem em condições de baixa luminosidade. 

 

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Abelha noturna da espécie Ptiloglossa latecalcarata visitando flor de cambuci (Campomanesia phaea). Imagem: Rodolfo Liporoni. 

 

Voar no escuro não é fácil

 

O voo noturno é uma atividade desafiadora para as abelhas. A quantidade de luz à noite chega a ser 100 milhões de vezes menor do que a disponível durante o dia, especialmente em áreas em que o céu fica escondido pela vegetação. Em um ambiente tão escuro, a visão das abelhas apresenta algumas limitações relacionadas ao funcionamento de seus olhos. 

 

Os olhos de abelhas são do tipo composto, formado por milhares de pequenas estruturas que captam a luz do ambiente, chamadas omatídeos. A luz recebida pela córnea de um omatídeo ativa apenas os fotorreceptores daquele omatídeo individual, em um arranjo de aposição. Isso gera uma imagem com alta nitidez, mas o aproveitamento da luz é baixo e, por isso, insetos com olhos desse tipo voam melhor em condições muito iluminadas. 

 

Como parte de superação desse problema, a maioria dos insetos noturnos, como mariposas e muitos besouros, têm omatídeos arranjados em superposição. Assim, a luz que entra por cada omatídeo pode ativar várias partes da camada de fotorreceptores. O resultado são imagens mais desfocadas, mas um aumento de 100 a 1000 vezes no aproveitamento da luz disponível. 

 

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Olhos da abelha noturna Ptiloglossa latecalcarata (acima) e seu molde (abaixo). Cada circunferência corresponde a um omatídeo. Imagens: Carolina Caetano.

 

Interessados em saber como as abelhas noturnas superam esse desafio, o grupo de pesquisadores passou dois meses em um pomar de cambuci no município de Mogi das Cruzes, interior de São Paulo. Entre quatro e sete horas da manhã, a equipe contou as visitas que cinco espécies de abelhas faziam às árvores e também mediu a quantidade de luz disponível no pomar, a temperatura e a umidade do ar, a velocidade do vento e a quantidade de flores de cambuci abertas em cada noite . 

 

Os resultados mostram que a luz é o principal fator que afeta a atividade das abelhas. Elas começam a visitar o cambuci mais cedo em noites mais iluminadas, como as noites claras e de lua cheia. À medida em que o nascer do sol se aproxima, o número de abelhas ativas também aumenta e atinge o máximo 30 minutos antes de o sol aparecer. Depois disso, cada vez menos abelhas aparecem para visitar as flores e, aproximadamente 30 minutos depois do nascer do sol, quase todas já pararam as visitas no cambuci. 

 

Segundo Rodolfo Liporoni, biólogo que liderou o estudo, a explicação para esse comportamento pode passar tanto pela fisiologia quanto pela ecologia das espécies. Ele explica que as abelhas noturnas podem ter um relógio biológico interno, que indica a hora de começar e de encerrar as atividades, como acontece em outros animais, inclusive outras espécies de abelha. 

 

Mas outra explicação passa pela vantagem de ser o primeiro a aproveitar recursos e evitar competidores. “As flores de cambuci abrem à noite, mas no começo da manhã já começam a ser visitadas por abelhas diurnas, como a [abelha] europeia Apis mellifera. Elas são espécies sociais, chegam em grande quantidade e dominam as flores, ao contrário das espécies solitárias que estudamos. Ao chegarem mais cedo, as abelhas noturnas conseguem aproveitar melhor os recursos florais, como o pólen recém-disponibilizado, e evitar a competição. Esse padrão já tinha sido observado no doutorado do Guaraci Cordeiro, um dos pesquisadores da equipe”, diz. 

 

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Abelhas europeias Apis mellifera, de comportamento social, visitando flor de cambuci no início da manhã. Imagem: Guaraci Cordeiro.

 

Respostas além da luz

 

Os resultados da pesquisa são inéditos no Brasil e mostram que as abelhas noturnas dependem fortemente de uma quantidade mínima de luz para visitarem as flores em busca de recurso. No caso das espécies polinizadoras do cambuci, esse limiar é alcançado mais de uma hora antes do nascer do sol. Os pesquisadores ressaltam que a ausência de efeitos de outros fatores ambientais, como temperatura e disponibilidade de flores, pode ser consequência de características da área de estudo. 

 

A pesquisa foi conduzida no Brasil, onde as variações de temperatura são menos intensas do que em outros países. “O crepúsculo matutino é o período do dia em que geralmente as temperaturas estão mais baixas. Nós também observamos esse padrão, mas no contexto de um país tropical as temperaturas não chegaram a ser tão baixas a ponto de limitar a atividade das abelhas, que além disso devem conseguir aumentar sua temperatura corporal pela vibração do tórax antes do voo”, explica Rodolfo.

 

Os pesquisadores ressaltam ainda que a área de estudo não reflete a distribuição da planta em ambientes naturais: o pomar representa uma condição artificial que concentra uma alta disponibilidade de pólen em uma área relativamente pequena. Rodolfo esclarece que, na Mata Atlântica, as árvores de cambuci são muito mais dispersas e a quantidade de flores disponíveis pode se revelar importante para a atividade das abelhas.

 

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Pomar de cambuci onde o grupo de pesquisadores realizou o estudo sobre abelhas noturnas. Ao fundo, fragmento de Mata Atlântica. Imagem: Rodolfo Liporoni.

 

Os próximos passos da pesquisa incluem investigar outras plantas que são visitadas pelas abelhas noturnas e como esses animais integram visão e outros sentidos, como o olfato, na localização das flores. Os cientistas também pretendem analisar os ninhos encontrados no pomar de cambuci para entender como as abelhas se comportam em “sua casa” e como utilizam outros recursos florais. 

 

O trabalho, feito em colaboração com pesquisadores da Universidade de Lund, na Suécia, e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq – Processos 133965/2017-1 e 401466/2014-0). A publicação na íntegra está disponível gratuitamente e em inglês na página da revista científica Scientific Reports (DOI: 10.1038/s41598-020-72047-x).

 

Texto: Luanne Caires e Rodolfo Liporoni