renato chaves

 

Por Renato Chaves

*Texto escrito como parte da dissertação de mestrado do Renato, defendida no Programa de Pós-graduação em Ecologia da USP. Renato atualmente faz doutorado no Programa, sob orientação do Prof. Eduardo Santos. 

 

Este é um guia de sexo. Um guia não ilustrado, infelizmente. Mas é definitivamente um guia de sexo. E não se trata daqueles guias tradicionais que, de tão emocionantes, nos fazem desejar do fundo de nosso estoque de gametas que pertencêssemos a uma espécie com reprodução assexuada. Não. Deixaremos o jargão detalhista para dissertações e aulas de educação sexual das redes de ensino. Mas antes de começar, admito que este guia talvez seja mais adequado para aranhas do que para humanos. Destaco também que é muito difícil traçar paralelos entre o comportamento de humanos e de outros animais, pois somos profundamente moldados pela cultura. Mas convenhamos que, se ao buscar a cura para suas angústias, você chegou justamente aqui, nesta dissertação, não fará mal continuar a leitura.  

 

renato chaves lionsEm alguns momentos da vida, quando estamos em um ambiente em que há indivíduos de nossa espécie, devemos avaliar como ocorre a interação sexual entre esses indivíduos. Todos nós já passamos por isso. Se não for o seu caso, você provavelmente não tem idade suficiente para ler as linhas que se seguem. Em algumas espécies, alguns poucos machos copulam com várias fêmeas. É o caso de leões, que defendem um território com acesso a água e alimentos e impedem a entrada de machos competidores. Em outros casos, como nas aves jaçanãs, o padrão inverso ocorre e são as fêmeas que mantêm haréns. Mas a promiscuidade não é regra absoluta, em 1% das espécies ocorrem casais fixos. Esse é o caso dos simpáticos Schistosoma mansoni, vermes causadores da barriga d’água. Nessa espécie, a fidelidade e intimidade dentro de um casal são tão intensas que a fêmea vive dentro do corpo do macho.

Obviamente, não é sempre que podemos defender territórios ou viver dentro de outro indivíduo para garantir nosso sucesso reprodutivo. Em alguns insetos como as efemérides, por exemplo, a fase adulta é extremamente curta e às vezes não dura mais que um dia. Uma quantidade enorme de indivíduos chega à fase adulta simultaneamente, sendo impossível monopolizar territórios ou afastar concorrentes. Assim que as efemérides emergem, inicia-se uma competição intensa pela localização de parceiros do sexo oposto e quem for mais rápido e eficiente será mais bem sucedido. Essa eficiência na localização de parceiros sexuais pode ser alcançada de diversas formas. Em caracóis, machos detectam o muco liberado por fêmeas. Em algumas mariposas, machos viajam centenas de metros seguindo o odor liberado por fêmeas receptivas. Humanos, por sua vez, publicam fotos em redes sociais da internet.

Mas não basta ao macho encontrar uma fêmea. Para obter sucesso reprodutivo, ele precisa conquistar essa fêmea. Essa conquista baseia-se em características dos machos que são atrativas para as fêmeas, tais como juba negra em leões e musculatura peitoral bem desenvolvida em seres humanos. Na aranha Paratrechalea ornata, animal foco deste guia, machos capturam uma presa e a revestem com seda, formando uma pequena esfera branca, o presente nupcial. Essa refeição empacotada em seda é romanticamente oferecida à fêmea como uma forma de cortejo. Se a fêmea aceita o presente, enquanto ela se alimenta da presa oferecida, o macho copula com ela. Mas note um detalhe importante: a mesma presa que permite a construção de um presente nupcial poderia servir de alimento para o macho. Isso estabelece um grande dilema: toda vez que o macho captura uma presa, ele tem que decidir entre produzir um presente nupcial (investindo em sua reprodução) ou se alimentar (investindo na manutenção e no desenvolvimento de seu próprio corpo).

 

renato chaves aranha

Paratrechalea ornata (Imagem: Luiz Ernesto Costa Schmidt)

 

É notória a influência da alimentação sobre os organismos. Em 1991, tornou-se famoso o caso de Amaro João da Silva, trabalhador rural pernambucano. Por terem se alimentado muito mal por quase toda vida, Amaro e seus filhos mais velhos se tornaram adultos com nanismo. Por outro lado, ao receberem alimentação de boa qualidade, os filhos mais novos cresceram normalmente, mostrando que restrições alimentares prolongadas podem ter consequências radicais para o desenvolvimento e talvez outros aspectos da vida dos organismos, como o comportamento reprodutivo. Em besouros rola-bosta, por exemplo, diferenças na alimentação durante a fase larval produzem dois tipos de machos adultos: os grandes, que monopolizam uma massa de fezes usada pelas fêmeas como local de deposição de ovos, e os pequenos, que invadem os territórios dos machos grandes e se acasalam furtivamente com algumas fêmeas. Nesse caso, mesmo adotando estratégias diferentes para a obtenção de fêmeas, os dois tipos de macho conseguem se reproduzir. Já em P. ornata, o cortejo envolve o uso de um alimento e, portanto, restrições alimentares são potencialmente mais danosas para indivíduos mal alimentados, pois qualquer presa oferecida para uma fêmea na forma de um presente nupcial não pode ser consumida pelo macho.

Mesmo que um macho de P. ornata supere todos os percalços na busca por uma parceira reprodutiva, encontrando, cortejando e copulando com ela, não há nenhuma garantia de que ele será pai dos filhotes que ela irá produzir. Fêmeas de várias espécies, incluindo humanos, podem copular com mais de um macho e, uma vez dentro do organismo da fêmea, o esperma desses machos competirá pela fertilização dos óvulos dela. Em algumas aranhas, como é o caso de P. ornata, é esperado que o primeiro macho a copular com a fêmea fertilize mais ovos que os machos seguintes. Portanto, a melhor forma de lidar com a competição de esperma é encontrar uma fêmea virgem. Entre os animais, machos apresentam outras estratégias para contornar a competição de esperma. Após a cópula, machos de algumas espécies de escorpiões argentinos depositam um plugue na abertura genital feminina que funciona como um cinto de castidade, impedindo que outros machos se acasalem com ela. Machos da borboleta do maracujá, por sua vez, esperam uma fêmea emergir de sua pupa e imediatamente copulam com ela. Logo após a cópula, o macho libera um odor sobre a fêmea que a torna extremamente pouco atrativa para outros machos, o que diminui muito a chance desta fêmea copular novamente. É melhor nem pensar qual seria a estratégia análoga em humanos!

renato chaves questionE aqui chegamos ao ponto crítico deste guia. De posse de toda essa informação, podemos especular qual a melhor estratégia para machos de P. ornata se reproduzirem. Peço a você que se liberte de quaisquer padrões ou estereótipos comportamentais humanos e se permita analisar a questão do ponto de vista de uma aranha macho. Primeiro, o que essa aranha macho deve fazer para encontrar uma fêmea? Quais fêmeas deve escolher: virgens, copuladas ou qualquer uma? Se aparecer um macho competindo pela fêmea, o que se deve fazer: produzir um presente nupcial sensacional, produzir um presente de baixa qualidade ou desistir de conquistar a fêmea? Caso esteja com um pouco de fome, o macho deve produzir um presente ou comer a presa? Se ele estiver com muita fome, será que vale a pena correr o risco de morrer de inanição para alcançar o sonho de ter aranhas bebê?

Assim como o caracol macho que identifica a trilha de muco liberado pela fêmea, machos da aranha Paratrechalea ornata identificam os fios de seda depositados no chão pelas fêmeas e utilizam esta informação para encontrar potenciais parceiras reprodutivas. No entanto, os machos investem igualmente na busca por fêmeas virgens e copuladas. Se você respondeu inicialmente que os machos investiriam mais na busca por fêmeas virgens, não se sinta mal. Seu palpite faz todo sentido! Errar faz parte do jogo da ciência e, muitas vezes, aprendemos mais com nossos erros do que com nossos acertos. Será que os machos simplesmente não são capazes de diferenciar a seda de fêmeas virgens? Ou será que as fêmeas que já copularam disfarçam seu cheiro para que outros machos continuem tentando cortejá-las? Ao fazer isso, as fêmeas poderiam continuar recebendo refeições de graça de seus pretendentes em troca de uma cópula. Essa é uma das perguntas interessantes que ficarão em aberto e que poderão dar origem a mais pesquisas no futuro.

Apesar de não reconhecer os fios de seda de fêmeas virgens, os machos de P. ornata são claramente capazes de identificar os fios de seda de outros machos. Os fios de seda deixados pelos machos no chão dão pistas do grau de competição por uma determinada fêmea e, portanto, indicam o possível risco de competição de esperma entre os machos. Se só há fios de seda de fêmea, a competição por ela deve ser baixa e a chance da fêmea encontrada ser virgem é alta. E como os machos respondem à pressão da competição por parceiras reprodutivas? Se você respondeu que eles deveriam caprichar na construção de um super presente para impressionar a parceira e ganhar a competição por ela, você se enganou. Diante da competição, os machos produzem presentes mais baratos ou mal embrulhados, isto é, presas envolvidas em pouca seda. Ao que parece, os machos não abrem mão da disputa pela fêmea, mas guardam energia e seda para a construção de futuros presentes que servirão para cortejar uma outra fêmea que talvez seja virgem.

Por fim, se você respondeu que, quando mal alimentado, um macho diminuiria o investimento no presente e apostaria em recuperar sua condição física, você acertou. Enquanto machos bem alimentados produzem presentes grandes e bem empacotados em seda, machos que ficaram um bom tempo sem comer se alimentam totalmente da presa ou oferecem presentes menores. O resultado mais chocante, porém, é o efeito de longa duração que a fome pode ter no comportamento dos machos. Se durante as primeiras semanas como adulto um macho comer mal, ele terá uma propensão muito baixa de construir um presente durante o resto da vida, mesmo que depois ele passe a se alimentar muito bem. Como as fêmeas de P. ornata preferem se acasalar com machos que oferecem presentes, o efeito da fome prolongada para os machos é terrível! Ainda que após algumas semanas um macho passe de raquítico a “super forte”, o trauma da fome fará com que este macho quase sempre coma suas presas e raramente ofereça um presente a suas pretendentes.

Aos machos de P. ornata que estão em busca de uma vida sexual ativa e emocionante, ficam as seguintes dicas: sigam a seda de fêmeas, não gastem muita energia com fêmeas que não sejam virgens e sempre mantenham uma dieta nutritiva e balanceada. Às fêmeas de P. ornata, por sua vez, a mensagem principal é muito clara: se um macho está oferecendo um presente nupcial, trata-se quase certamente de um pretendente de alta qualidade, pois só aqueles machos que foram bem alimentados no passado são capazes de construir e ofertar uma bela presa embrulhada em seda. Aos meus leitoras e leitores, a sugestão é outra: não tentem imitar o comportamento dessas aranhas, pois não há evidências de que baratas enroladas em fios de seda sejam atrativas para humanos. Por outro lado, acho que não custa nada se alimentar corretamente...


Para saber os detalhes do trabalho do Renato, leia o artigo que ele publicou na Scientific Reports, em parceria com seu orientador de mestrado, Glauco Machado, e com os pesquisadores Luiz Ernesto Costa-Schmidt e Eduardo Santos. 

Para a versão em português, confira o texto completo da dissertação