how science supports sp1Créditos: Nacho Doce/REUTERS

 

Os primeiros casos do que se tornaria uma epidemia de Zika no Brasil foram detectados nos estados do Maranhão e Sergipe no fim de 2014. Ao fim de 2015, a doença havia se espalhado pelo país. Em outubro daquele ano, surgiram evidências em Pernambuco de que o vírus estava afetando mulheres grávidas e causando encefalite (inflamação no cérebro) de fetos. Começou então o pânico público, que piorou com a falta de entendimento sobre o vírus: o Zika, identificado pela primeira vez em florestas do leste da África na década de 1940, era estranho para a América do Sul. 

Por causa de sua rica rede de instituições públicas e privadas de pesquisa, São Paulo teve um papel de destaque na resposta à epidemia, diz Paolo Zanotto, microbiologista da Universidade de São Paulo (USP). Pesquisas anteriores desenvolvidas no estado em vírus transmitidos por mosquitos, como o da dengue e chikungunya, tornaram possível uma resposta rápida. Em um ano desde que a encefalite foi associada ao Zika, descobertas sobre o comportamento do vírus foram publicadas e financiadas para tornar possível o desenvolvimento de vacinas, e kits de diagnóstico e repelentes de mosquitos começaram a surgir nos laboratórios de São Paulo. 

Zanotto liderou a criação de uma rede de cientistas dedicada a conter a dispersão do vírus. A Rede Zika, formada em novembro de 2015, tinha como objetivo responder aos desafios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que incentivava os estados membros a encontrar formas confiáveis de detectar, confirmar e gerenciar casos da doença, e a educar a população sobre as medidas que poderiam ser tomadas para reduzir a exposição ao vírus.

A rede uniu vários cientistas que estavam envolvidos em pesquisas na área de virologia no estado, assim como neurocientistas e imunologistas. As primeiras amostras do Zika, vindas do Senegal, chegaram ao laboratório de Zanotto na USP em janeiro de 2016. Elas foram isoladas para análises moleculares e, então, distribuídas para outros pesquisadores em São Paulo e em outras regiões do Brasil. Ao todo, a Rede Zika tinha 32 laboratórios trabalhando no projeto. 

Em termos de número de artigos publicados sobre o vírus, a rede colocou a USP em segundo lugar nos rankings mundiais - atrás apenas no Instituto Pasteur, em Paris. 

"Na metade de 2016, a rede já tinha respondido à maioria dos desafios da OMS", afirma Zanotto. Testes de amostras sanguíneas foram implementados e os cientistas desenvolveram uma análise retrospectiva de como a doença tinha se espalhado pelo país, o que ajudou a prever possíveis movimentações do vírus. Análises genéticas em crianças nascidas com encefalite ajudaram a entender os impactos do vírus sobre a formação do cérebro. "Com a rede, foi muito mais fácil conduzir pesquisa básica e aplicada, a qualidade do conhecimento foi diversificada", diz Zanotto, que complementa afirmando que, antes da Rede Zika, a maior parte dos recursos foram dedicados apenas a testes clínicos. 

A pesquisa, em alguns casos, foi muito além das recomendações da OMS. Um dos estudos, publicado em abril de 2018, sugeriu que o vírus da Zika poderia ser usado para combater tumores cerebrais devido à sua ação seletiva em células cancerosas (C. Kaid et al. Cancer Reshttp://doi.org/gdqnv3; 2018). 

 

Uma história de apoio à ciência

São Paulo tem uma forte tradição de ciência aplicada e, de acordo com o ranking  Times de Educação Superior (Times Higher Eduaction), o estado possui duas das melhores universidades da América Latina: USP e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). São Paulo também abriga 34 institutos tecnológicos, que são especializados em atividades específicas de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Um deles, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), foi fundado há 131 anos e é um dos mais antigos institutos de pesquisa do país.

O estado tem 45 milhões de habitantes e é o mais rico e mais industrializado do Brasil, gerando 32% do produto interno bruto (PIB) brasileiro. Ele também é responsável por 52% dos artigos científicos publicados no país e, sozinho, tem produção científica maior do que todos os outros países da América do Sul. A cidade de São Paulo, capital do estado, é a maior metrópole da América do Sul. 

 

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Em 2016, o Brazil investiu 79.2 bilhões de reais (cerca de 20 bilhões de dólares americanos) em P&D. Em 2017, o estado de São Paulo sozinho investiu 25.8 bilhões de reais em P&D, sendo que mais da metade desse valor veio diretamente do setor privado. De acordo com indicadores oficiais, mais cientistas trabalham nos laboratórios privados do estado do que nas universidades. 

 

Doce sucesso

Esse fortalecimento da ciência tem ajudado São Paulo ao longo de sua história. O papel do IAC em melhorar as colheitas de cana-de-açúcar, por exemplo, tem sido vital para o crescimento do estado. Embora a agricultura represente apenas 1.59% de seu PIB total, São Paulo fornece mais da metade da cana-de-açúcar brasileira. 

Em 1933, o IAC começou um programa para impulsionar a produção de 50 para 80 toneladas por hectare, por meio do cruzamento seletivo de espécies de cana-de-açúcar. As novas variedades também eram mais resistentes a climas mais secos e melhor adaptadas a solos pobres. Marcos Landell, que dirige o programa de cana-de-açúcar do IAC, diz que o instituto atualmente está trabalhando para aumentar a produtividade para 100 toneladas por hectare para todos os produtores, uma taxa que os principais produtores do estado já estão atingindo. 

A tecnologia por trás desse crescimento não vem da genética, mas da engenharia. Sendo uma gramínea, a cana-de-açúcar é plantada diretamente no solo e o crescimento de seus bulbos é difícil de controlar e prever. Mas, crescendo os talos em estufas antes do plantio, os produtores podem monitorar e controlar o desenvolvimento do cultivo de forma mais efetiva. 

"Isso permite um melhor desenvolvimento das máquinas [de colheita]. Antes, ninguém sabia exatamente quantas canas cresceriam de uma muda. Agora nós estamos falando de agricultura de precisão", diz Landell. 

O esforço do IAC tem contribuído para reanimar a indústria brasileira de etanol de cana ao longo dos últimos 20 anos. Veículos abastecidos com etanol foram desenvolvidos nos anos 1970 para reduzir a dependência brasileira do petróleo, mas o setor colapsou nos anos 1990 à medida que os preços mundiais do petróleo caíram e os preços do açúcar aumentaram. 

A tecnologia implementada por produtoras de carros na virada do século permitiu que os veículos rodassem com diferentes combinações de gasolina e etanol. Os veículos flex ajudaram a reanimar o setor de cana e o Brasil é hoje o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo e o segundo maior produtor de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos. 

 

Biodiversidade brasileira

Lúcia Lohmann, uma bióloga evolucionista do Instituto de Biologia da USP, lidera há seis anos um grupo de pesquisa interdisciplinar que investiga as conexões entre geologia e evolução de espécies na Amazônia. Lohmann é financiada pelo Biota, um programa lançado em 1999 pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). 

A proposta do Biota é investigar a vasta biodiversidade do Brasil e o programa tem gerado efeitos em políticas públicas e educacionais do país. Em seus primeiros dez anos, o foco foi apenas no estado de São Paulo e os dados coletados durante as pesquisas foram utilizados para produzir guias governamentais de conservação da biodiversidade do estado. 

A segunda fase do programa será encerrada em 2020. A ideia é assegurar que os resultados do projeto ultrapassem as barreiras do meio científico, diz Carlos Joly, biólogo da UNICAMP e um dos coordenadores do Biota. O programa já produziu material educacional, incluindo livros escolares para crianças e adolescentes, e vídeos sobre as paisagens naturais do Brasil e seus ecossistemas. A área de políticas públicas é um assunto delicado no Brasil no momento (veja "Trump tropical"). 

 

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A segunda fase também tem um compromisso geográfico mais amplo: pesquisadores universitários financiados pelo Biota-FAPESP estão estudando a biodiversidade por todo o país. Atenção especial tem sido dedicada à floresta amazônica, que cobre 6.5 milhões de quilômetros quadrados no Brazil e em outros países da América do Sul. 

De acordo com um relatório publicado pela FAPESP no ano passado, o Biota já financiou 299 projetos de pesquisa e treinou 288 estudantes de doutorado nos últimos 18 anos (A. R. S. Garraffoni et al. Brazilian Biodiversity Research: A Promising Future; 2017). Durante esse tempo, foi gerada informação sobre aproximadamente 25000 espécies, mais de 3000 novas espécies foram descobertas e cerca de 2200 artigos foram publicados em revistas científicas. 

Joly considera que a próxima fase do programa deve envolver parcerias com o setor privado, especialmente no setor de produção agrícola. Ele reconhece que encorajar empresas a investir mais em ciência aplicada é um desafio, mas que o setor pode ser convencido de que conservar e restaurar áreas naturais deve ser uma prioridade. Ele cita o exemplo de manter populações de abelhas locais: "Sem polinizadores, nós não teríamos cultivos suficientes de café e laranja, que são tão importantes para o nosso estado". 

 

Encontrando financiamento

A FAPESP tem desempenhado papel fundamental no financiamento tanto da Rede Zika quanto do Biota. Criada em 1962, a instituição tem sido uma das forças propulsoras da ciência e da inovação em São Paulo. Por lei, 1% da receita do estado deve ser investida em P&D (em 2017, o total de impostos arrecadados no estado foi de 205 bilhões de reais). 

Embora esse comprometimento seja padrão por todo o Brasil, a maioria dos estados geralmente falha em garantir que toda a porcentagem estipulada vá para fundações de financiamento à pesquisa. A FAPESP, a maior dessas fundações, é a única que sempre recebeu o repasse conforme previsto. 

A FAPESP opera um programa de incentivos a pequenos empreendimentos, o PIPE. Ele tem atuado por 20 anos com o objetivo de transferir conhecimento gerado nas universidades para empresas locais. Se uma empresa consegue financiamento pelo PIPE, ela deve trabalhar em parceria com uma universidade pública. Se a colaboração resulta em um produto, a companhia divide a propriedade intelectual com a FAPESP. O diretor científico da fundação, Carlos Henrique Brito Cruz, diz que, para cada real de dinheiro público investido pelo PIPE, outros 11 reais são investidos pelo setor privado. 

Um dos projetos do PIPE, liderado por Danielle Leal de Oliveira, uma virologista da USP, é uma parceria com a empresa Inovatech. O objetivo é produzir um kit de teste que possa identificar se uma pessoa foi infectada pelo Zika virus. Os métodos que existem hoje não conseguem diferenciar entre o Zika e outros vírus transmitidos por insetos e carrapatos, como a dengue e a febre amarela. 

Leal de Oliveira nunca tinha trabalhado com o setor privado e diz que a experiência tem sido "desafiadora", mas que a parceria precisava acontecer. "É uma união de objetivos: a empresa quer lucro e nós queremos promover o bem estar público na universidade", diz ela. "Se os novos kits chegarem a hospitais públicos e forem incluídos em exames pré-natais, centenas de mulheres podem aproveitar melhor o momento especial que é a gestação". 

Coordenar 32 laboratórios durante a crise de Zika "não veio do nada" diz Brito Cruz. "Se as sementes não tivessem sido plantadas antes, teríamos levado no mínimo dez anos para criar uma rede efetiva". 

 

Reprodução de: Nature 563, S179-S181 (2018) | doi: 10.1038/d41586-018-07536-1

Tradução: Luanne Caires